Domingo, 4 de Julho de 2010

Programa Eco-Escolas - do conhecimento à acção

"A questão ética fundamental do nosso tempo consiste no repensar dos fundamentos das múltiplas formas de agir capaz de enfrentar a carência de uma medida, de um equilíbrio para perigosa desmesura do nosso poder, que se tornou uma ameaça para a Humanidade e para a biosfera.

Nessa questão está em jogo não só a existência física, mas também a identidade da nossa própria imagem como seres racionais. "                

                                        Soromenho-Marques (1998:145)

 

Na década de 60, começaram as discussões sobre os riscos da degradação do ambiente. O livro Primavera Silenciosa, da bióloga Rachel Carson publicado em 1962, despoletou intensos debates a nível global sobre o ambiente. Um outro contributo importante para este tipo de discussões ocorreu, em 1968, em Paris, com a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para Uso e Conservação Racionais dos Recursos da Biosfera, denominada Conferência da Biosfera, cuja organização foi da competência da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Neste ano foi criado o Clube de Roma, cujas pretensões eram discutir e analisar os limites do crescimento económico, considerando o uso crescente de recursos naturais. Esta associação informal de individualidades considerou que os maiores problemas com que a humanidade se deparava eram a industrialização acelerada, o rápido crescimento demográfico, a escassez de alimentos, a depleção de recursos não renováveis, a degradação do ambiente.

 

Os problemas ambientais tornaram-se referências diárias, a partir dos anos 70 com principal enfoque na década de 80. São várias as notícias de desastres ambientais que começam a ter impacto na sociedade. O acidente na Central Nuclear de Chernobyl, a intoxicação de milhares de pessoas por mercúrio lançado na Baía de Minamata, no Japão, o “buraco” da camada de ozono, a contaminação das águas e dos solos devido aos resíduos sólidos, o desastre de contaminação de Love Canal, nos EUA, os alimentos perigosos, os derrames de petróleo, as chuvas ácidas, entre outros, são exemplos de notícias que chamaram atenção para os problemas ambientais. Acresce ainda referir que nos anos 70 ocorreram as primeiras crises petrolíferas. Estas constituíram um alerta para a dependência da humanidade de um recurso finito e sujeito a interesses políticos.

 

A nível internacional houve esforços no sentido de encontrar soluções para as questões ambientais, sendo realizadas cimeiras, conferências, onde foram elaboradas cartas, declarações, relatórios, agendas, planos de acção e onde se assumiram compromissos (fig.1). Nestas conferências e cimeiras ocorre a formalização e génese de conceitos como Educação Ambiental e Educação para o Desenvolvimento Sustentável, tendo sido, também definidos os seus princípios.

 

 

Figura 1- Segundo Gomes (2010)[1],  marcos importantes para a EA e EDS, bem como surgimento do Programa Eco-Escolas a nível internacional.

 

Segundo Palmer (1998), o conceito de Educação Ambiental (EA) nasce em 1948, no entanto é na Conferência de Estocolmo que a EA é considerada uma estratégia básica de combate à crise do ambiente. Com o Relatório Brundtland nasce o termo Desenvolvimento Sustentável e cada vez mais é realçado o papel importante da educação. Educação não apenas ambiental, mas Educação para o Desenvolvimento Sustentável, Educação para a Sustentabilidade ou, como alguns autores preferem, Educação Ambiental para a Sustentabilidade. Da cimeira realizada em 1992, saem vários documentos, sendo de salientar, pela sua importância para a operacionalização do Desenvolvimento Sustentável, a Agenda 21, um documento virado para o século XXI, com intervenção a nível local. Este documento no capítulo 36 º valoriza a educação para resolver problemas ambientais e concretizar o novo paradigma de Desenvolvimento Sustentável. Os elementos principais do DS já estavam incluídos nos princípios da EA definida na Conferência de Tbilissi. É depois da Eco 92 que o Programa Eco-Escolas tem a sua génese a nível internacional.

A Comissão da UNESCO, no nosso país, tem por missão implementar a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DEDS). Esta comissão considerou que projectos e programas já existentes no nosso país podem ser um veículo para a concretização da DEDS. O Programa EE, implementado nas escolas portuguesas em 1996 é um dos projectos que se constitui como um contributo para a concretização da Agenda 21 Local e, por conseguinte, um meio de Educar para o DS.

Apesar de várias recomendações enviadas para as escolas para que implementem projectos de EA/EDS, estudos[2] indicam que no ensino básico (1º, 2º e 3º ciclos) existem mais projectos, enquanto, no ensino secundário o seu número é reduzido, sendo no ensino universitário vestigial. Situação, esta, que no futuro se pretende que seja alterada. Relativamente ao ensino secundário, as causas explicativas, deste facto, residem na indisponibilidade quer de alunos, quer de professores devido às dinâmicas internas próprias deste tipo de escolas, tais como: o grau de dificuldade dos programas, exames e testes intermédios nacionais para acesso ao ensino superior, excessiva carga horária, entre outras. Não obstante estes obstáculos, é possível concretizar projectos de EA/EDS ou EpS e a comprová-lo está a Escola Secundária de Vila Verde, que foi distinguida pela ABAE, como sendo uma eco-escola, tendo hasteada a sua Bandeira Verde. Este galardão mostra à comunidade que a Escola Secundária de Vila Verde apresentou boas práticas em termos ambientais. Para atingir este reconhecimento, houve um grande empenhamento por parte de vários elementos, desde alunos, professores e funcionários não docentes. É de louvar o Conselho Executivo da Escola que não se escusou a esforços com o objectivo de que conseguíssemos concretizar os objectivos do Plano de Acção do PEE.

Este Programa nasceu no seio da Associação Bandeira Azul da Europa –FEE, e pauta-se por:

 - estimular actividades levadas a cabo, pela escola, no sentido da melhoria do seu desempenho ambiental, da gestão do espaço escolar, assim como, sensibilizar a comunidade

- desenvolver a participação pró-activa  dos estudantes na tomada de decisões e na implementação de acções

- propiciar a mudança de atitudes e o assumir de comportamentos sustentáveis no dia-a-dia, tanto a nível individual, familiar, como comunitário.

- disponibilizar formação e  apoio na implementação das actividades que as escolas se propõem concretizar aquando da elaboração do seu plano de acção.

- dar a conhecer as boas práticas e desenvolver trabalho em rede, quer a nível nacional, quer a nível internacional.

- estabelecer  parcerias e sinergias com entidades e instituições locais

 

A metodologia deste Programa é baseada na Agenda 21, sendo 7 as etapas que a constituem: conselho eco-escolas; auditoria ambiental; plano de acção; monitorização/avaliação; trabalho curricular; divulgação à comunidade; eco-código.

Todas as Eco-Escolas devem, obrigatoriamente, abordar os temas-base: água, resíduos, energia. Como temas complementares, mencionam-se: biodiversidade, agricultura biológica, espaços exteriores, ruído e transportes ou outros. Em cada ano existe, além dos temas- base obrigatórios um outro tema(s), o tema do ano, também obrigatório.

Uma escola que pretenda ser reconhecida com a Bandeira Verde Eco-Escolas deverá apresentar na sua candidatura evidências de que seguiu a metodologia proposta; concretizou o seu plano de acção e realizou actividades no âmbito dos temas-base (água, resíduos e energia) e tema do ano. Ao terceiro ano de aplicação do Programa é feita uma auditoria externa à escola, por elementos da comissão nacional da ABAE

Este ano a nossa escola escolheu como tema-ano Alterações Climáticas/Floresta e para conseguirmos uma maior participação activa dos estudantes, alguns grupos de alunos de Área de Projecto do 12º ano desenvolveram as temáticas escolhidas, à excepção dos “Transportes”. Em alternativa a este tema foi escolhido o Voluntariado. Começámos a implementação do PEE, neste ano lectivo, pela divulgação do projecto à comunidade escolar e extra-escolar, foram eleitos os alunos para participarem no conselho eco-escolas, estabeleceram-se novas parcerias, um grupo de alunos do 12º ano procedeu à Auditoria Ambiental da escola e um outro ocupou-se de transformar a Horta Biológica e Pedagógica da escola, numa horta social. Atendendo à conjectura sócio-económica pela qual o nosso país está a passar, os alunos acharam por bem, introduzir a componente social e económica no PEE, abrindo, a horta da escola, à comunidade exterior. Seguindo esta linha de pensamento, um outro grupo de Área de Projecto do 12º ano, explorou o “Voluntariado” como uma forma de participação activa na sociedade, tendo promovido campanhas de recolha de bens, quer alimentares, quer outro tipo de bens que poderiam constituir resíduos e que foram distribuídos pelas famílias sinalizadas como mais carenciadas. Estas campanhas foram concretizadas no âmbito da parceria estabelecida com a autarquia, o Pelouro da Cultura. Dado o ano de 2010 ser considerado o Ano Internacional da Biodiversidade, os alunos considerando-se condóminos da Terra trabalharam a temática Biodiversidade, numa perspectiva de seres vivos, que somos como os demais e que partilhamos o mesmo condomínio, que é o nosso planeta, por forma a atingirmos o ideal de sustentabilidade. Ideal esse que se atinge subindo vários patamares: a democracia, a justiça, o direito à diferença e à inclusividade. Um outro grupo de alunos está a produzir mini-ecopontos, para as salas da escola, com novo design e utilizando materiais que iriam para reciclar. O Monte do Castelo está a ser alvo de estudo, por estudantes do 12º ano, no âmbito do projecto “Um Bosque perto de si”. Um protótipo de um carro solar está a ser desenvolvido por um grupo de estudantes do 12º ano, como um contributo para combater as alterações climáticas. À semelhança do ano anterior estamos a considerar vários indicadores relativamente aos temas- base e a outros temas: consumo de energia eléctrica, consumo de gás, consumo de água, quantidade de fotocópias, quantidade de ruído (decibéis) em vários espaços da escola, teor de dióxido de carbono nas salas de aula, quantidade de REEE e quantidade de resíduos produzidos semanalmente- nº de sacos de 150 litros.

Fizemos várias reuniões do conselho eco-escola, tendo havido um maior número de alunos a participarem, contudo deseja-se uma maior adesão a estas reuniões, quer pela comunidade escolar quer pela extra-escolar.

O plano de acção, que foi aprovado, no conselho eco-escola pode ser consultado na moodle na disciplina Programa Eco-Escolas. Lá podem ser consultadas todas as actividades, para além das já aludidas anteriormente, inclusive a participação no concurso Eco-Árvore de Natal promovido pela autarquia e pela eco-escola nossa parceira a EPATV. Neste concurso a escola obteve o 3º lugar, tendo, os alunos que mais participaram na feitura desta árvore, recebido uma pendrive.

Estamos a aproximar-nos do termo do ano lectivo e é altura de fazermos um balanço e avaliar as práticas ambientais desenvolvidas na escola. Perante a avaliação que será feita em conselho eco-escola proceder-se-á à candidatura ao Galardão Bandeira Verde. A obtenção deste galardão pela escola significa mais responsabilidade e contamos com todos os elementos da comunidade escolar para melhorarmos os indicadores de desempenho ambiental. Um aspecto, muito importante a ser tido em consideração para a melhoria destes indicadores, é toda a escola assumir o Programa Eco-Escolas como seu, como um contributo para a sustentabilidade, que propicia a gestão dos recursos. Este Programa é também um contributo para a educação para a cidadania. Uma escola de excelência é aquela que prima pela excelência dos resultados académicos dos seus estudantes e também pelas suas práticas e política ambientais.

 

Referências bibliográficas:

 

 - ABAE (2010). Portal Programa Eco-Escolas. Consultado em 20 de Abril de 2010, no endereço:  http://www.abae.pt/programa/EE/descricao.php

 

- GOMES, J. (2009) Programa Eco-Escolas- um contributo para a sua avaliação. Dissertação de Mestrado. Universidade Aberta.

 

- MARQUES, S.V. (1998). O Futuro Frágil, os desafios da crise global do ambiente. Lisboa: Publicações Europa-América. Mem Martins.

 

- PALMER , J. A. (1998). Environmental Education in the 21st Century, Teory, Pratice, Progress and Promise, Routledge, London



[1]O esquema foi apresentado na acção de Formação do Programa Eco-Escolas em Fevereiro de 2010 sobre a Qualidade do Programa Eco-Escolas.

[2] Em pesquisas recentes, verificou-se que os projectos de educação ambiental e para o desenvolvimento sustentável se concentram sobretudo nos primeiros graus de ensino, reduzindo-se substancialmente durante o ensino secundário e tornando-se residuais no caso do ensino superior Educação Ambiental:balanço e perspectivas. Lisboa: OBSERVA, 2005-2006.

publicado por clacas às 20:01

link do post | comentar | favorito

Apresentação

Um grupo de professoras de Biologia e Geologia da Escola Secundária/3 de Vila Verde propuseram a candidatura da escola ao Programa Eco-Escolas e nesta sequência surge este blogue. Através deste espaço pretendemos dar a conhecer as actividades realizadas na nossa escola e na comunidade extra-escolar, no âmbito deste programa, sendo o suporte de muitas dessas acções o Clube-Laboratório Aberto à Ciência, ao Ambiente e à Saúde.

Novembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

posts recentes

Cerimónia de hastear da o...

Ano Internacional Do Turi...

ESVV ganha bandeira verde

...

3º CEE

Dia Eco-Escola

Eco Desfile 2015/2016

Vamos Consertar o Planeta...

2º CEE- 16/03/2016

Visita à Lipor l e ll

arquivos

Novembro 2016

Outubro 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

tags

todas as tags

Fotos recentes

Pesquisar neste blog